Livramento Hoje

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Perímetro Irrigado do Brumado: o oásis pode virar sertão

Por: Lucas Spínola: Livramentense, economista e mestre em desenvolvimento regional   Terça, 28.Novembro.2017 às 09h00


Foto: Reprodução | Mandacaru da Serra

A história demonstra que a dinâmica de nossa cidade se transformou a partir da instalação do Perímetro Irrigado do Brumado no final dos anos 1980. Uma nova guinada foi dada no setor agrícola no município, impulsionada pela fruticultura irrigada, gerando emprego e renda. Esta ascensão obteve nova força quando a manga, nosso principal produto, ganhou espaço no comércio internacional. Douglass North, em sua Teoria da Base de Exportação, explica em grande medida o fenômeno vivenciado em nosso município. Num período em que o pensamento dominante era o de que o desenvolvimento só manifestaria com o processo de industrialização, North defendeu que a evolução econômica poderia ser explicada por um produto de exportação - ressalta-se que a exportação pode ser entendida como comercialização além das fronteiras regionais -. No caso de Livramento, foi à produção agrícola que garantiu incremento na renda e suas externalidades foram percebidas nos demais segmentos, em especial, no comércio e nos serviços que cresceram muito como efeito desdobramento da renda oriunda do setor agrícola. A derrocada do setor agrícola tem como principal ilustração o estado de abandono do Perímetro Irrigado do Brumado. Com a queda da renda em consequência ao mau desempenho do setor agrícola, o comércio e o setor de serviços passaram a enfrentar dificuldades e cresceu a dependência econômica do setor público. Rosivaldo Romão, presidente da Associação do Distrito de Irrigação do Brumado (ADIB), em resposta a um questionário enviado por mim meses atrás, confirmou a triste realidade do Perímetro Irrigado do Brumado, cujo volume de produção que superava 51 mil toneladas em 2010, foi de aproximadamente 4.500 toneladas em 2016, significando uma redução de mais de 90%, com uma perspectiva de piora para este ano. O perímetro é obra inacabada desde a sua inauguração e clama pela regularização fundiária, pelo sistema de pressurização, pela aquisição de válvulas de controle de pressão e vazão dos hidrômetros e pela revitalização de sua infraestrutura. Além das deficiências internas do perímetro enfrenta-se um grande problema com a irrigação às margens da bacia de capacitação da Barragem Luiz Vieira, em Rio de Contas. As condições desfavoráveis em Livramento provocou a migração do investimento de muitos produtores para outras cidades. Se o Perímetro Irrigado do Brumado já foi oásis, agora caminha para tornar-se sertão. Para tentar explicar a situação de abandono e a falta de investimento ao longo dos anos no perímetro recorrerei a outro teórico, Sergio Boisier, que fala da importância da confluência de forças políticas na atração dos investimentos governamentais, já que os recursos são escassos e objeto de disputa entre as mais diversas regiões. Infelizmente, a política em nossa região, muito especialmente em nossa cidade, limita-se às questões eleitorais, que se estende nos ciclos de quatro anos entre uma eleição e a subsequente, com interesses pessoais sobrepondo aos interesses comuns. A sociedade livramentense precisa abraçar essa causa. O interesse e a luta pelos investimentos necessários a recuperação do Perímetro Irrigado do Brumado não é apenas dos irrigantes, tampouco apenas da classe política, mas de toda cidade. O perímetro foi por anos o principal elemento da economia de nossa cidade e há condições para que ele volte a cumprir este papel. Aceitar o fim do perímetro é nos colocar num ciclo vicioso de ruína, que reduzirá significativamente nossa condição de vida.

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